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Causa de massacre da família do RJ pode ser reflexo das doenças mentais vividas diariamente por milhares de pessoas

A problemática da saúde mental dos funcionários que é totalmente ignorada por empresas diariamente e que foca simplesmente na produtividade e rendimento financeiro, foi abordada por Gabriela Moura num post que foi compartilhado milhares de vezes.

Ela expôs essa realidade triste e cotidiana devido ao caso que repercutiu no último dia 29, onde uma família foi encontrada morta em um condomínio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

O pai da família, Nabor Coutinho de Oliveira Júnior, aos 43 anos, teria matado a mulher, Laís Khoury, de 48 anos, a facadas e depois atacado seus filhos Arthur e Henrique, de 7 e 10 anos, respectivamente. Os corpos teriam sido jogados do 18º andar, onde moravam, e Nabor teria se atirado logo em seguida.

Causa de massacre da família do RJ pode ser reflexo das doenças mentais vividas diariamente por milhares de pessoas

Investigações encontraram uma carta escrita por Nabor, onde ele revela seu desespero e deixa claro que a motivação do crime e suicídio, teria sido a situação financeira e profissional pela qual ele passava.

Comentários indignados invadiram as redes sociais criticando a atitude de Nabor, mas Gabriela conseguiu esclarecer de maneira sensível essa realidade tão cotidiana e tão escondida. Confira abaixo o depoimento dela na íntegra:

"Vocês viram o caso da família de classe média alta do RJ que o cara matou esposa e filhos e depois se matou? Se não viram, procurem saber, sério. Ele deixou uma carta dizendo que estava fazendo aquilo porque temia não conseguir mais sustentar a família. Disse que não estava mais sendo copiado nos e-mails dos projetos do trabalho, e que não sabia se era só paranoia ou não queriam mesmo mais ele por lá.

E antes que vocês digam "caraio, mas o cara era rico, imagina se fosse pobre de verdade kkkk" leiam o que eu vou dizer.Essa notícia caiu no meu colo como um bebê recém nascido amparado por uma doula. Quero dizer o seguinte:Há tempos eu venho fazendo uma pesquisa sobre a saúde mental da pessoa em situação de desemprego. Não é um tema simples porque você esbarra em muitos assuntos: você começa a enxergar que a saúde do sujeito já vinha sido deteriorada antes do desemprego, pela precariedade de trabalho, contingente de reserva e afins. Você compreende que pobres e ricos são tratados de maneira diferente, e muita gente que acha que é rica, descobre de uma forma difícil que seu cargo de analista é tão descartável quando da faxineira a quem ele nunca lhe dirigiu um bom dia. E por ai vai.

Causa de massacre da família do RJ pode ser reflexo das doenças mentais vividas diariamente por milhares de pessoas

Lembrei de duas coisas. A primeira foi uma situação que testemunhei: uma gerente que trabalhava comigo chorou em uma reunião quando viu seus projetos muito estagnados por problemas diversos, atribuidos à tecnologia. Ela foi demitida após o caso, o diretor alegou que ela não tinha estabilidade emocional para o cargo. Nunca trabalhei em um local onde a saúde mental do funcionário era levada em conta. Se você estava com algum problema, azar o teu, segura a tua onda, engole o choro e bora aumentar essa produtividade aê, dane-se que teu pai morreu, teu filho ta com problemas na escola, você está se divorciando, seu saldo bancário tá no vermelho porque você teve urgências esse mês ou foi assaltado. Senta a bunda ai e produz.

A segunda coisa que lembrei foi de uma conversa com um grande amigo e psiquiatra, o Francisco Mantovanini, que me contou sobre um paciente que faz dupla jornada em sub-empregos pra sustentar os filhos e dorme 3 horas por noite. Você vai falar o que pro sujeito que chega com a cabeça toda bagunçada no consultório? Entupir ele de remédio pra ele dormir ou mandar ele largar um dos empregos sendo que ele PRECISA dos dois?

Ah, tem uma terceira coisa que eu lembrei, e faz link com essa segunda. O discurso empreendedor de grandes nomes da consultoria empresarial, que aconselham você a usar seu tempo livre para produzir mais e assim ter mais dinheiro a médio e longo prazo. Lazer é vagabundagem, evite. Dormir é preguiça, evite. Estudar é preciso, corra atrás, compre cursos caros e parcele, se for necessário. Li em uma pesquisa cujo link deve estar perdido no meio das minhas 30 abas abertas, que 1 a cada 5 suicídios são motivados por desemprego. Em que momento da História esse dado passou a ser tão pouco importante a ponto de negligenciarmos dessa forma? Não há choque, não há revolta na perda de uma vida pro capitalismo. E ai você é obrigado a ouvir um cara com 20 anos nas costas chamar isso de mimimi porque, segundo ele, "quem quer, consegue", ou aturar uma Bel Pesce como modelo de empreendedorismo.

O nosso modo de vida está nos matando. Alcoolismo, abuso de outras substâncias, depressão, ansiedade, perda do senso de coletividade, tudo isso, se investigado a fundo, tem a mesma gênese, que é o atual sistema econômico, que é vendido como sucesso e único caminho possível para o conforto e prosperidade.. Nisso, esse mesmo discurso adoecedor é comprado por membros de movimentos sociais que se vendem pelo prazer de uma capa de revista achando que estão fazendo história, quando, na verdade, estão dando continuidade àquilo que sempre nos matou, e reforçando discursos que comumente terminam em morte causada por: desespero.

Então, voltando ao caso: o cara do RJ se matou e matou a família toda, alegando dificuldades financeiras. Esse tipo de coisa é mais comum do que podemos saber, já que casos de suicídio não são muito noticiados por motivos óbvios, mas eventualmente casos assim vem à tona para nos lembrar o que não deveríamos ter esquecido.Tá tudo jogado porque tô com pressa, outra hora falo disso com mais carinho e detalhes pra vocês entenderem como Economia e Psicologia se unem nessa equação triste, e o que cada um de nós tem a ver com isso".

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